Fundamentos de gestão da inovação
O que é inovação segundo a referência internacional vigente, como classificá-la sem misturar dimensões conceituais e onde a pesquisa científica se posiciona.
Inovação e gestão da inovação
Segundo o Manual de Oslo (OCDE/Eurostat, 4ª edição, 2018), uma inovação é um produto ou processo de negócio novo ou aprimorado (ou uma combinação de ambos) que difere significativamente dos produtos ou processos anteriores da unidade e que foi disponibilizado a usuários potenciais (produto) ou colocado em uso pela unidade (processo).
A gestão da inovação é o conjunto de práticas, capacidades organizacionais, modelos e ferramentas que permitem transformar conhecimento — científico ou prático — em valor implementado para a sociedade e para o mercado. Não é uma coleção de ferramentas: é um processo de decisão baseado em evidências.
Da 3ª à 4ª edição: o que mudou
- •Inovação de produto
- •Inovação de processo
- •Inovação de marketing
- •Inovação organizacional
Classificação em quatro tipos. Ainda amplamente citada em textos, editais e indicadores nacionais — por isso é apresentada aqui historicamente.
- •Inovação de produto
- •Inovação de processo de negócio
A 4ª edição consolidou as quatro categorias anteriores em duas: produto e processo de negócio (que abrange, entre outras funções, produção, distribuição, marketing, administração e organização). Além disso, exige explicitamente que a novidade tenha sido implementada — disponibilizada a usuários ou colocada em uso.
A taxonomia de 2005 não deve ser apresentada como definição atual. Ao ler literatura ou editais anteriores a 2018, verifique qual edição está sendo utilizada.
Classificar por dimensão, não em lista única
Grau de novidade, efeito competitivo, fluxo de conhecimento, orientação e contexto são dimensões independentes. Uma mesma inovação recebe uma classificação em cada uma delas.
Aperfeiçoamentos contínuos e cumulativos em produtos, processos ou modelos existentes — base da competitividade industrial cotidiana.
Mudança substancial na base técnica ou organizacional, estabelecendo novos princípios de solução. Refere-se ao grau de novidade, não ao efeito de mercado.
Melhora o desempenho valorizado pelos clientes atuais do mercado principal — tende a favorecer os incumbentes.
Origina-se em nichos de baixa exigência ou em não-consumidores, com desempenho inicialmente inferior nas métricas tradicionais, e evolui até deslocar incumbentes (Christensen). É um conceito de trajetória competitiva, não de intensidade tecnológica.
Ciclo interno de P&D, com apropriação integral dentro da organização.
Fluxos deliberados de entrada e saída de conhecimento para acelerar a inovação interna e expandir mercados para uso externo da tecnologia (Chesbrough).
Co-desenvolvimento estruturado entre organizações, ICTs e usuários, com governança e partilha de resultados definidas em contrato.
A trajetória é impulsionada por avanços científicos e tecnológicos que buscam aplicação.
A trajetória é impulsionada por demanda explícita de clientes e mercados.
Direcionada por missões públicas associadas a grandes desafios societais, com metas, prazos e portfólio coordenado.
Usuários avançados como fonte primária de conceitos e adaptações.
Mudança orientada por novos significados e proposições de sentido para o usuário.
Soluções de custo e complexidade radicalmente reduzidos, mantendo desempenho essencial em contextos de recursos escassos.
Voltada à ampliação de acesso e à redução de desigualdades em bens, serviços e capacidades.
Integra desempenho ambiental e social ao longo do ciclo de vida como requisito de projeto, e não como externalidade.
Inovação radical ≠ inovação disruptiva
Radical descreve o GRAU DE NOVIDADE tecnológica ou organizacional em relação ao estado anterior.
Disruptiva descreve a DINÂMICA COMPETITIVA e a trajetória de mercado: entrada por nichos ou não-consumo, desempenho inicialmente inferior nas métricas dominantes e posterior deslocamento de incumbentes.
Uma inovação pode ser radical sem ser disruptiva (avanço técnico absorvido pelos incumbentes) e disruptiva sem ser tecnologicamente radical (recombinação simples com novo modelo de negócio). Tratar os termos como sinônimos é incompatível com a literatura de Christensen.
Quadrante de Stokes
Eixos: Busca de compreensão fundamental (a pesquisa busca entender princípios?) × Consideração de uso (a pesquisa é motivada por aplicação?)
Alta busca de compreensão fundamental, baixa consideração de uso — pesquisa básica pura.
Alta busca de compreensão fundamental e alta consideração de uso — pesquisa básica inspirada pelo uso.
Baixa busca de compreensão fundamental, alta consideração de uso — pesquisa aplicada pura.
Baixa em ambos os eixos. Stokes não atribuiu nome canônico a este quadrante; costuma ser associado a investigações exploratórias sistemáticas sem objetivo explícito de uso nem de teoria.
O quarto quadrante não é o “quadrante de Peterson”. A formulação clássica de Stokes (1997) nomeia apenas Bohr, Pasteur e Edison.